Lidia Lisbôa, nasceu na Vila Guarani, em Terra Roxa, no Paraná, em 1970, é uma multiartista brasileira. A artista destaca-se por suas habilidades em diversas técnicas como escultura, cerâmica, crochê, performances e desenhos. Seu trabalho recebeu o Prêmio Maimeri 75 anos (1998) e o II Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-brasileiras (2012).
Biografia Nascida na Vila Guarani, em Terra Roxa, no Paraná, a artista se mudou aos 16 anos para São Paulo, onde vive até os dias atuais.
Em 2022, durante o Episódio 7 da série “Enciclopédia Negra”, em entrevista promovida pela Companhia das Letras, com o apoio do Instituto Ibirapitanga e da Pinacoteca de São Paulo, Lidia Lisbôa revela que se descobriu como artista aos seis anos:“ eu me descobri artistas, assim... Eu acho que meu primeiro trabalho eu tinha seis anos de idade. Foi quando eu fiz uma cama de campanha para o meu tio Paizinho, que foram folhas de feijão Guandu e uma florzinha amarela no meio. E aí meu tio disse para minha: ‘mãe cuida dessa menina que essa menina é diferente. Ela é esquisita’. Anos depois o meu tio entendeu quem eu era: que eu era uma artista” (Lidia Lisbôa)A vida e obra de Lidia se influenciam mutuamente. Em entrevista ao Podcast Papo Contemporâneo a artista declarou que desde criança era muito observadora. Uma de suas obras mais populares, a série “Cupinzeiros” (1996 - 2024) conecta-se, de modo não-intencional, com uma memória subconsciente sua, que descobriu em diálogo com sua mãe. A artista conta que quando teve a ideia de criar a obra “Cupinzeiros” lhe ocorreu por meio da manifestação de uma afirmação enfática, quando batendo no peito disse: “Vou fazer o meu Cupinzeiro”, em 1996. Ela mesma se surpreendeu com a ênfase e firmeza da ideia de “meu Cupinzeiro”. Anos depois, seu marido Henrique perguntou para ela, por curiosidade se ela já havia mexido em cupinzeiros, ao que respondeu e reagiu com “Deus me livre de mexer no cupinzeiro”, o que levou a questão seguinte “Porque você faz cupinzeiro, então?”. A artista, então, recorreu sem êxito às suas memórias e, em seguida, decidiu consultar sua mãe, que lhe contou que a proibia na infância de mexer em cupinzeiros, lhe fazendo várias advertências de segurança. Ela, ainda menina, com aproximadamente dois anos de idade, se dedicava à observar por horas, mas sem tocar, os cupinzeiros, “como uma estátua”, como sua mãe definiu. Os atravessamentos autobiográficos influenciam muito o trabalho da artista. A produção totalmente manual dos cupinzeiros integra cerâmica e crochê, e pode levar cerca de 8 meses para serem confeccionados. A artista elabora cinco peças por processo concomitante de produção. Na mesma entrevista a artista revela que aprendeu a fazer crochê, antes mesmo de ir para a escola. Nas memórias de sua infância compartilhadas durante a conversa são citadas sua Mãe, Maria, e seu Tio Paizinho. Outra vivência da artista integrada à sua obra é abordada na mesma entrevista: a amamentação. Uma realidade muito comum até o século XX no Brasil, e que deu origem a formação contemporânea dos bancos de leite para amamentação de recém-nascidos, era a amamentação de crianças por mulheres que não eram suas respectivas mães. No século XIX a atividade, chamada de “ama de leite” era desempenhada como ocupação profissional por mulheres africanas e afro-brasileiras que fizeram da amamentação um meio de empregabilidade, e algumas vezes, até mesmo, entre mulheres escravizadas, que como uma forma de exploração de seus corpos eram alugadas para terceiros por seu senhorio, ou forma de juntar recursos para a aquisição da liberdade. A amamentação, também, fez parte da experiência de solidariedade entre mulheres, como forma de apoiar jovens mães com limitações em seu processo de amamentação, ou que rapidamente precisavam reingressar ao mercado de trabalho, antes da conclusão da fase de amamentação. A artista conta que tem memórias da infância de mulheres que amamentavam e que, ela mesma, precisou contar com o apoio de Dona Marineusa e Dona Norata, mulheres que, com ela, amamentaram sua filha. Lidia incorpora essa experiência e a força do feminino na série artística “Tetas que deram de mamar ao mundo” (2015 - 2024). Mãe solo, a artista encara o difícil cenário de não reconhecimento de artistas negras no Brasil como uma vergonha para o país. Além de suas memórias e vivências de infância, a artista se inspira em artistas como: Louise Bourgeois, Yayoi Kusama, Eva Hesse e, no Brasil, Rosana Paulino, Sonia Gomes e Janaina Barros.
Carreira Cursou Gravura em metal no Museu Lasar Segall, escultura contemporânea no Museu Brasileiro de Escultura (MuBE), cerâmica no Liceu de Artes e Ofícios e História da Arte no Museu de Arte de São Paulo (MASP). Quando chegou em São Paulo trabalhou, inicialmente, como empregada doméstica no ateliê de um costureiro. Com o passar do tempo foi se envolvendo na rotina do ateliê, auxiliando as costureiras na confecção. Seu bom desempenho foi percebido por pessoas que passaram pelo ateliê e reconheceram sua vocação para a arte, incentivando-a. O encorajamento à estimulou a fazer teatro, figurino e capas de caderno artesanais para vender. Conheceu o artista plástico Ademir Martins, que se tornou seu tutor e mestre. Ademir a considerava uma aprendiz e herdeira de seu saber. Atuou dois com ele em seu ateliê, que a encorajou e a auxiliou a estudar no MASP. Em 2015, o conjunto de suas obras foi exposto em duas exposições individuais: uma na Galeria Rabieh, em São Paulo, e outra na Galeria Pretos Novos, no Rio de Janeiro.
Entre as obras de destaque da artista estão as duas séries: “Tetas que deram de mamar ao mundo” e “Cupinzeiros”. A primeira teve sua confecção iniciada em 2011, e é constituída por esculturas têxteis de grandes dimensões, que alçadas, percorrem do teto ao chão, e com variações de coloração que variam entre suas peças.“Tons claros de bege e rosa-claro em uma; outra em camadas intensas de vermelho, vinho e bordô, atravessadas por áreas de verde e preto; uma terceira que combina faixas vibrantes de vermelho, laranja e amarelo; e ainda uma forma suspensa em ocre e laranja queimado, cuja configuração envolvente sugere um berço”. A segunda integra as técnicas de cerâmica e crochê as “esculturas em cerâmica estabelecem relações formais e materiais com os cupinzeiros que ocupam a paisagem do campo brasileiro e que remetem às memórias da infância de Lisbôa”. Ao longo de sua carreira a artista integrou mostras coletivas no Museo Madre, em Nápoles, na Itália, no Palais des Nations, Genebra, na Suiça, no Museu Afro Brasil, no Instituto Tomie Ohtake e no Museu de Arte Moderna, esses três últimos em São Paulo, no Brasil. Seu trabalho, também, integrou a 13a Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, no Brasil.Algumas de suas obras fazem integram coleções do Institute for Studies on Latin American Art e do Museo del Barrio, em Nova York, nos Estados Unidos, da Pinacoteca de São Paulo e do Sesc São Paulo. As seguintes obras e exposições integram a trajetória da artista:
Exposições Individuais
Exposições Coletivas
Prêmios Seu trabalho recebeu o Prêmio Maimeri 75 anos (1998) e o II Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-brasileiras (2012).
Referências