Cultura

'Que tipo de masculino eu represento?', questiona Thiago Lacerda
'Que tipo de masculino eu represento?', questiona Thiago Lacerda · Imagem: Source: oglobo.globo.com

No ar em "Por você" após três anos afastado das novelas, ator diz que buscou no teatro estofo para aprimorar o ofício, afirma que nunca acreditou no rótulo de galã e que Lutar contra natureza machista é um propósito cotidiano: ‘É preciso humildade e não se eximir do debate’

Thiago Lacerda — Foto: Ana Branco
Thiago Lacerda — Foto: Ana Branco · Imagem: Thiago Lacerda — Foto: Ana Branco

0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x

'Que tipo de masculino eu represento?', questiona Thiago Lacerda
'Que tipo de masculino eu represento?', questiona Thiago Lacerda · Imagem: Source: oglobo.globo.com

00:00

'Que tipo de masculino eu represento?', questiona Thiago Lacerda
'Que tipo de masculino eu represento?', questiona Thiago Lacerda · Imagem: Source: oglobo.globo.com

00:00

'Que tipo de masculino eu represento?', questiona Thiago Lacerda
'Que tipo de masculino eu represento?', questiona Thiago Lacerda · Imagem: Source: oglobo.globo.com

Thiago Lacerda — Foto: Ana Branco

Thiago Lacerda e a jornalista Maria Fortuna no estúdio da redação e OGLOBO — Foto: Ana Branco
Thiago Lacerda e a jornalista Maria Fortuna no estúdio da redação e OGLOBO — Foto: Ana Branco · Imagem: Thiago Lacerda e a jornalista Maria Fortuna no estúdio da redação e OGLOBO — Foto: Ana Branco

Thiago Lacerda correu atrás. Não quis saber de ficar acomodado no papel de galã de novela que encarnou várias vezes ao longo dos 30 anos de carreira que completa em 2027. Preferiu ir em busca de estofo e novos recursos no teatro para aprimorar seu ofício.

'Que tipo de masculino eu represento?', questiona Thiago Lacerda
'Que tipo de masculino eu represento?', questiona Thiago Lacerda · Imagem: Source: oglobo.globo.com

- Maria Rita. 'Não ouço minha mãe porque dói', diz cantora sobre Elis Regina

'Que tipo de masculino eu represento?', questiona Thiago Lacerda
'Que tipo de masculino eu represento?', questiona Thiago Lacerda · Imagem: Source: oglobo.globo.com

- Luana Piovani. 'Sou evangélica macumbeira'

'Que tipo de masculino eu represento?', questiona Thiago Lacerda
'Que tipo de masculino eu represento?', questiona Thiago Lacerda · Imagem: Source: oglobo.globo.com

A pandemia serviu como ponto definitivo dessa virada, quando se dedicou a monólogos inspirados em Shakespeare e Albert Camus e a projetos de leitura em torno de obras de Drummond, Erico Verissimo e Mário Quintana. Experimentou, então, um caminho criativo sem volta, dando início a um processo de transformação profissional e pessoal, que se consolidou com o fim de seu contrato fixo com a GLOBO, encerrado em 2024, depois de 26 anos.

É com essa bagagem que o ator retorna às novelas após três anos, na pele do advogado doce e sensível Gabriel, um dos protagonistas de “Por você”, folhetim das 19h. Aos 48 anos, sem um fio de cabelo branco (“acho que vou rejeitar meu grisalho”, brinca), Thiago compartilha suas reflexões e pensamentos em entrevista ao videocast do GLOBO “Conversa vai, conversa vem”, que vai ao ar amanhã (21), às 9h, no Youtube e no Spotify, e prova que a maturidade lhe fez um bem danado. Leia trecho:

Thiago Lacerda — Foto: Ana Branco

Gabriel é diferente dos heróis românticos e épicos que interpretou na TV. É um homem contemporâneo fora do estereótipo de macho alfa, com masculinidade menos rígida, cheio de afeto, insegurança, vulnerável...

Gabriel parte do trauma do abandono na infância. A possibilidade de buscar essa fragilidade, a sensibilidade com que transmuta a dor em dedicação, atenção e amor nas relações, principalmente, com a filha... A despeito do protagonismo feminino ser evidente e concreto, os temas da ausência da paternidade, machismo, dificuldades do masculino são urgentes de debater. Gabriel investiga esse masculino que precisa ser tratado com mais dignidade e cuidado. Fico feliz em ser instrumento de provocação a respeito do que pensamos sobre a natureza masculina.

'Busco ser esse masculino que aceita o processo de transformação, de reflexão. Lutar contra essa natureza preconceituosa, machista é um propósito cotidiano'

- Antonio Fagundes. 'Não sou meu tipo de homem'

- Chay Suede. Assista à entrevista do ator no 'Conversa vai', conversa vem'

Que herança da masculinidade tradicional você ainda precisa abandonar?

Não tenho nenhuma intenção de criar a ilusão de que não somos inseridos num contexto histórico. Somos herança e produto de 500 anos de uma história de colonização, preconceito, opressão, machismo. O patriarcado tem muito mais do que 500 anos. Tudo isso habita a gente. O meu trabalho cotidiano é jogar luz sobre essa natureza e vigiar ela. Me transformar, me modificar e aprender. Quando o tema vira patriarcado, machismo e a masculinidade que está em xeque, e que bom, prefiro mais ouvir do que da opinião. Busco ser esse masculino que aceita o processo de transformação, de reflexão. Me mantenho atento pra desconstruir essa constituição que faz parte de mim, é herança concreta. Lutar contra essa natureza preconceituosa, machista é um propósito cotidiano.

Como homens deve contribuir no processo de apoio à igualdade de gênero, no combate da violência contra a mulher?

De cara, não se eximir da importância de se perguntar: "Que tipo de masculino eu represento". A humildade de olhar pra si primeiro. E não se eximir, não se furtar da responsabilidade do debate. De forma humilde, com a escuta atenta e coragem de repensar comportamentos, cultura e o lugar de onde a gente vem.

O que tem de você no Gabriel?

Muita coisa. Me reconheço nele. No final das contas, é sobre isso: a gente se misturar com as figuras que investiga. A arte é também transmutação, caminho de cura e transformação, oportunidade de processar nossas dores, tristezas, memórias, saudades.

Thiago Lacerda e a jornalista Maria Fortuna no estúdio da redação e OGLOBO — Foto: Ana Branco

A novela trata com sensibilidade vários temas, mas a rivalidade feminina segue sendo um recurso de roteiro. Explorar esse assunto funciona como espelho crítico da sociedade patriarcal ou corrobora com ela?

Precisamos entender a sociedade em que estamos inseridos. Somos reféns de arquétipos. Propus aos autores e à direção essa reflexão a respeito dos triângulos que se formavam em cena, da maneira que a gente abordaria a disputa de dois homens pela protagonista, das protagonistas por um terceiro personagem. De que maneira a gente lida com os clichês? Sempre me pareceu interessante a oportunidade do Gabriel tratar esse debate de um lugar mais profundo, surpreendente, sensível.

A gente vê muita coisa estranha sendo trazida. A novela tem oportunidade de trazer esses arquétipos de outra maneira, fazer uma discussão mais interessante artisticamente, dramaturgicamente, emocionalmente, intelectualmente. Isso inclui a relação das personagens femininas entre si. Precisamos estar atentos ao lidar essas fórmulas que a gente já conhece. Fiquei feliz de trazer essa provocação e fui bem recebido. Estavam atentos, estavam alinhados.

- Carla Madeira. 'A vida real ficou insustentável', diz a escritora

- Zélia Duncan. 'Manter o tesão', diz Zélia Duncan sobre 45 anos de carreira

Como foi voltar à TV após o mergulho no teatro, te trouxe outro olhar?

Entendi que a maneira de lidar com o meu ofício era me dedicar verdade, honestamente. Acomodação, lugar de conforto e dos rótulos nunca me satisfizeram. O que me convocava, a maneira de lidar com as oportunidades que a vida me deu, era encarar de outra forma. E o teatro era o que eu tinha de mais seguro nessa ideia de recursos de uma caixa de ferramenta. Vou para o teatro como uma necessidade técnica de sobreviver no meu amor.

O processo do meu encontro com o palco é de necessidade pessoal. O prazer de estar no palco é único e especial. Mas me dediquei verdadeiramente a esse ofício. Essa verdade passa por inquietação e necessidade de descobrir as razões pelas quais estamos fazendo aquilo. Por que quero dizer esse texto? Como quero chegar no coração das pessoas? Essa coerência e estrutura sempre foi muito mais importante do que qualquer coisa que pensem ou necessidade de responder a alguma expectativa.

'Entrar em cena é um ato político, por definição. Lamento os colegas que discordam, acho um erro crasso de análise quem discorda'

Como alguém que tem se provocado em linguagens diferentes e fez esse mergulho no teatro, enxerga o papel da arte hoje?

O que a gente faz é político. Entrar em cena é um ato político, por definição. Lamento os colegas que discordam, acho um erro crasso de análise quem discorda. A arte revela muita coisa, tem um papel de cura. A gente anuncia o que antevê, porque a nossa matéria de trabalho é a natureza humana. A gente volta para trás para chegar em algum lugar, busca referências. Livros fazem parte da matéria-prima do nosso ofício. É natural que a categoria artística seja arauto, que a gente grite primeiro a fim de denunciar algo que se aproxima.

- Tony Ramos. 'Se respeitar os outros e leal aos amigos é ser certinho, eu sou certinho'

Por meio da arte é possível discutir debater tabus como aborto, como descriminalização das drogas?

Não só é possível como é essencial. Palco e set são espaços de potência. Sou shakespeariano, está tudo lá. Ao reproduzir a provocação, descubro o lugar do que a gente faz. A obra do Camus, por exemplo...

'Trazer a consciência de que esse mal, quando a nossa imunidade política, democrática, quando a consciência intelectual baixa, essa história prolifera como um tumor na nossa sociedade. É um pouco o retrato do que a gente está vendo. A maneira como a violência ganhou o nosso dia a dia através das redes sociais, essas redes que precisam ser reguladas'.

Não por acaso escolheu encenar “A peste”, do Camus, na pandemia

Para mim, era essencial denunciar como opera o horror, denunciar a forma silenciosa como a peste se instaura. A peste, do ponto de vista do Camus, como uma metáfora da ascensão do autoritarismo na Europa dos anos 1930. A maneira como o autoritarismo e a violência habita cada um de nós. A maneira como o Camus revela a nossa natureza, assim como o Shakespeare no próprio Hamlet, Macbeth, Otelo. Essa natureza violenta, perversa, preconceituosa... Tem o maravilhamento, mas a precariedade, a contradição.

E, no caso da peça, tem essa metáfora. Onde se lê peste, lê-se autoritarismo. Onde se lê ratos, lê-se fascistas. A ideia de levar a reflexão sobre como isso opera, que é preciso estar atento porque o mal não acaba, o horror não vai embora. A gente só toma consciência dele e o mantém no lugar onde ele precisa estar: nos porões, na jaula, no esgoto. Trazer a consciência de que esse mal, quando a nossa imunidade política, democrática, quando a consciência intelectual baixa, essa história prolifera como um tumor na nossa sociedade. É um pouco o retrato do que a gente está vendo. A maneira como a violência ganhou o nosso dia a dia através das redes sociais, essas redes que precisam ser reguladas. O mal que tudo isso tem causado ao nosso povo, agora com essas bets... A gente pode evoluir?

Então, não faria propaganda de bet?

Não faria. É importante ter coragem de botar o dedo na ferida, é para isso que faço teatro. Para isso adaptei 'A peste'. Quando entro em cena, escolho provocar a plateia, a refletir a respeito dessa nossa natureza. Que letargia é essa? Que falta de humildade é essa que nos impede de ouvir, de ler e aprender a respeito de quem somos para que a gente não deixe se repetir? O que acontece hoje no mundo e o que a gente viu acontecer no Brasil e ainda vê porque não foi embora, está aí, está espreita, esperando a gente estar feliz, como o Camus diz.

Depois de um contrato fixo por 26 anos, abrir mão de um salário... deu medo? Teve que mexer em padrão de vida? Como é a sua relação com o dinheiro?

O medo faz parte, é importante, nos mantém atentos. Mas esse processo era natural e compartilhado com a empresa. Era importante que fosse ressignificada a nossa relação. Se tratava de uma sensação, tipo: "Caramba, pela primeira vez, não tenho relação previsível, contrato, emprego. Pela primeira vez, estou lidando com uma forma mais próxima da natureza do meu ofício do que o lugar de privilégio do qual sempre tive consciência". Era encerrar um ciclo, olhar para trás e falar: "Pô, legal, mas e agora? Cheguei na metade, como vai ser a próxima metade?".

E não foi por dinheiro que você voltou?

Absolutamente! Claro que as relações financeiras fazem parte do nosso dia a dia, mas a volta era natural também. Sempre foi dado que, mais cedo ou mais tarde, eu estaria de volta. Entre o encerramento e o retorno foi absolutamente natural. E voltar tem sido natural.

'Tive senso de responsabilidade com a oportunidade que a vida me deu. Era tudo muito raro, e não fui eu que escolhi. Vejo colegas batalhando, vi tanta gente talentosa cair, se perder para si mesmo. Perder porque não teve sorte, às vezes, a pessoa fez tudo certo e não rolou'

O seu encontro com a profissão foi por acaso. Queria ser gerente de banco, como seu pai, e foi fazer teatro para trabalhar a timidez...

Tinha essa ideia de ser gerente de banco e achava que devia trabalhar a minha timidez, que era uma questão na juventude, assim como o meu tamanho. Tenho 1m, 95cm, mas minto dizendo que é 1m93cm (risos). Estou tratando isso nas minhas análises. Mas, é isso, a vida me conduziu para esse lugar. E quando eu fui convocado, imediatamente pensei que precisava aprender, me dedicar. Tinha consciência de que a maneira como a vida me convocou e as coisas se revelaram só dependia de mim, da minha capacidade de me dedicar, de criar a minha disciplina e estudar.

'E foi muito cruel porque aprendi com a bola rolando. A chance que tive, com a cara ali no vídeo, de me dar mal...'

Tive senso de responsabilidade com a oportunidade que a vida me deu. Era tudo muito raro, e não fui eu que escolhi. Vejo colegas batalhando, vi tanta gente talentosa cair, se perder para si mesmo. Perder porque não teve sorte, às vezes, a pessoa fez tudo certo e não rolou. Falei: "Bicho, preciso corresponder, não posso fugir da responsabilidade". E foi muito cruel porque aprendi com a bola rolando. A chance que tive, com a cara ali no vídeo, de me dar mal...

Se acha um melhor ator hoje?

Me acho um ator mais preparado para lidar com os desafios que tenho ao encarar um personagem do que eu tinha lá atrás. Tenho mais ferramentas, mais caixinhas pra abrir. E mais calma, serenidade a respeito do que acontece depois que eles existem, quando vai ar ar, quando abre o pano.... Tenho também mais maturidade, para lidar.

'A paternidade é um pouco isso: a gente se preparar para o dia que eles vão'

É pai de três: Gael, 18, Cora, de 16, Pilar de 12. É tão bonito vê-los se revelarem como pessoas, né?

Sim, vê-los apontarem os próprios caminhos. E de que maneira a gente não atrapalha e diz: “Vai, tô de olho, tô por perto”. A paternidade é um pouco isso: a gente se preparar para o dia que eles vão. Lembro dessa sensação de perceber que meu pai não estava preparado. Quando fui, ele sentiu. Meus filhos me ajudam nesse processo do entendimento sobre o que é ser pai. Gabriel tem me ensinado. Diz coisas à filha... Não reproduzo o texto para meus filhos, mas penso nos temas para desenvolver. É bonita a maneira como a vida se mistura com o que faço. E como me alimento disso, como faz sentido pra mim. Descobrir o que quero contar para pessoas naquele momento através do personagens.

'A gente está separado. São 25 anos de uma vida. Tem sido um momento delicado, de muita dor, mas de ensinamento também. É tudo muito recente'

Em tempos de amores líquidos, em que se desiste fácil, você contabiliza mais de 20 anos de relacionamento com a atriz Vanessa Lóes. Como vai o casamento? Que desafios se impõem?

A gente está separado. São 25 anos de uma vida. É um assunto muito íntimo, foi um processo de muito tempo, que me trouxe muita lindeza, mas também me ensinou muita dureza. Tem sido um momento delicado, de muita dor, mas de ensinamento também. É tudo muito recente.

Num mundo em que se anuncia separação ou sexo de filho pelas redes, você se mantém discreto...

Tenho uma natureza que me impede de ser diferente. Sou mais discreto. Minha profissão, por definição, é exposta, pública. Nunca achei que devesse somar a isso a minha intimidade. Era importante proteger algo dessa exposição toda, que é violenta. As pessoas fantasiam, acho importante preservar minha intimidade. É mais temperamento que estratégia. Mas acredito que minha vida pertence a mim. Entendo que tenham curiosidades, aceito publicações a respeito da vida das pessoas famosas, mas não contem comigo para alimentar essa coisa.

Mais recente Próxima Gisele Bündchen, Elton John e mais: além de Leonardo, veja outros famosos que decidiram dar uma pausa na bebida alcoólica

- Thiago Lacerda