Usar IA para desabafar não é ideal; psiquiatra explica riscos de transformar tecnologia em substituta de conversa

IA como amigo e conselheiro: quando conversar com chatbots pode fazer mal?
IA como amigo e conselheiro: quando conversar com chatbots pode fazer mal? · Imagem: Source: www.terra.com.br

25 set 2026 - 04h58

Apesar das palavras serem convincentes, a inteligência artificial funciona como uma base de dados que atua com probabilidades
Apesar das palavras serem convincentes, a inteligência artificial funciona como uma base de dados que atua com probabilidades · Imagem: Apesar das palavras serem convincentes, a inteligência artificial funciona como uma base de dados que atua com probabilidades Foto: Imagem ilustrativa/Magnific

Compartilhar

IA como amigo e conselheiro: quando conversar com chatbots pode fazer mal?
IA como amigo e conselheiro: quando conversar com chatbots pode fazer mal? · Imagem: Source: www.terra.com.br

- Por: Marcela Ferreira

Psiquiatra alerta para riscos para a saúde mental de usar IA ao invés de consultar profissional
Psiquiatra alerta para riscos para a saúde mental de usar IA ao invés de consultar profissional · Imagem: Psiquiatra alerta para riscos para a saúde mental de usar IA ao invés de consultar profissional Foto: Imagem ilustrativa/Magnific

Apesar das palavras serem convincentes, a inteligência artificial funciona como uma base de dados que atua com probabilidades

IA como amigo e conselheiro: quando conversar com chatbots pode fazer mal?
IA como amigo e conselheiro: quando conversar com chatbots pode fazer mal? · Imagem: Source: www.terra.com.br

Foto: Imagem ilustrativa/Magnific

Usar a IA para pedir conselhos é forma de se desconectar de relações humanas
Usar a IA para pedir conselhos é forma de se desconectar de relações humanas · Imagem: Usar a IA para pedir conselhos é forma de se desconectar de relações humanas Foto: Imagem ilustrativa/Magnific

“Eu não colocaria ele nesse lugar de psicólogo, mas é como um amigo”. Essa é a definição que a nutricionista Laura Oliveira, de 25 anos, dá para a relação que criou com a inteligência artificial generativa. Usuária do ChatGPT, Gemini e Claude, ela recorre às ferramentas não apenas para estudar, trabalhar ou criar imagens, mas também para falar sobre situações pessoais, pedir opiniões e até decidir que roupa usar.

IA como amigo e conselheiro: quando conversar com chatbots pode fazer mal?
IA como amigo e conselheiro: quando conversar com chatbots pode fazer mal? · Imagem: Source: www.terra.com.br

- Receba as principais notícias direto no WhatsApp! Inscreva-se no canal do Terra

IA como amigo e conselheiro: quando conversar com chatbots pode fazer mal?
IA como amigo e conselheiro: quando conversar com chatbots pode fazer mal? · Imagem: Source: www.terra.com.br

Quando acontece alguma coisa em sua vida, Laura conta que costuma abrir o ChatGPT e perguntar se agiu da maneira certa. “Acontece alguma coisa e aí, diante dessa situação que aconteceu, como eu agi, às vezes sei lá, penso ‘será que eu fiz certo? Será que não?’ Aí eu pergunto pra ele”, relata.

IA como amigo e conselheiro: quando conversar com chatbots pode fazer mal?
IA como amigo e conselheiro: quando conversar com chatbots pode fazer mal? · Imagem: Source: www.terra.com.br

Para ela, a vantagem é justamente a disponibilidade e a ausência de julgamento. Há situações que prefere contar para a inteligência artificial em vez de dividir com amigos ou familiares.

IA como amigo e conselheiro: quando conversar com chatbots pode fazer mal?
IA como amigo e conselheiro: quando conversar com chatbots pode fazer mal? · Imagem: Source: www.terra.com.br

“Não é que eu prefira, mas tem coisas que eu acho que ele vai responder melhor, e às vezes também acho que tem um pouco isso do julgamento. Uma coisa que eu não queira contar para ninguém, mas eu quero contar, aí eu vou e falo com ele”, diz.

Imagem da matéria: IA como amigo e conselheiro: quando conversar com chatbots pode fazer mal?
Imagem da matéria: IA como amigo e conselheiro: quando conversar com chatbots pode fazer mal? · Imagem: Source: www.terra.com.br

A relação que Laura tem com a IA generativa – os chats – não é incomum hoje em dia. No próprio círculo social, ela relata que amigos e até o namorado também têm o mesmo costume. No entanto, ela conta que percebe que a mesma ferramenta “fala” com ela de forma diferente do que com os outros. Isso acontece porque a IA adapta a forma de conversar de acordo com o usuário, para que seja mais atrativo usá-la, dependendo da personalidade de cada um.

Foto: Imagem: gerada por IA / Portal Terra / TerrAI
Foto: Imagem: gerada por IA / Portal Terra / TerrAI · Imagem: Source: www.terra.com.br

Apesar das palavras serem convincentes, a inteligência artificial funciona como uma base de dados que atua com probabilidades. Por isso, ela sempre dará a resposta que provavelmente o usuário procura. Isso prova que não há um senso crítico por trás do retorno como em uma pessoa, e assim, ela não necessariamente está dando um conselho, mas diz o que o usuário provavelmente gostaria de ouvir.

Cresce a pressão por regras para a IA, à medida que pesquisadores e executivos fazem alertas preocupantes sobre os possíveis riscos da tecnologia Foto: Getty Images / BBC News Brasil
Cresce a pressão por regras para a IA, à medida que pesquisadores e executivos fazem alertas preocupantes sobre os possíveis riscos da tecnologia Foto: Getty Images / BBC News Brasil · Imagem: Source: www.terra.com.br

Uso de IA como amigo reflete necessidade de aprovação

Uso de IA no dia a dia pode prejudicar o pensamento crítico do usuário Foto: Imagem ilustrativa/Unsplash
Uso de IA no dia a dia pode prejudicar o pensamento crítico do usuário Foto: Imagem ilustrativa/Unsplash · Imagem: Source: www.terra.com.br

O psiquiatra Carlos Cais explica que existe uma combinação entre uma necessidade humana e uma característica da própria tecnologia que favorece essa percepção. “O ser humano é um bicho social. Ele precisa de interação com outros humanos”, afirma.

Foto: Imagem: gerada por IA / Portal Terra / TerrAI
Foto: Imagem: gerada por IA / Portal Terra / TerrAI · Imagem: Source: www.terra.com.br

Ao mesmo tempo, segundo ele, as inteligências artificiais apresentam um “assemelhamento ao humano” que facilita a atribuição de características como empatia, educação e acolhimento à máquina.

Cresce a pressão por regras para a IA, à medida que pesquisadores e executivos fazem alertas preocupantes sobre os possíveis riscos da tecnologia Foto: Getty Images / BBC News Brasil
Cresce a pressão por regras para a IA, à medida que pesquisadores e executivos fazem alertas preocupantes sobre os possíveis riscos da tecnologia Foto: Getty Images / BBC News Brasil · Imagem: Source: www.terra.com.br

Cais compara o fenômeno ao personagem Wilson, a bola de vôlei do filme Náufrago (2000), estrelado por Tom Hanks. Na história, o personagem está isolado em uma ilha e cria um rosto na bola, passando a conversar com ela.

Uso de IA no dia a dia pode prejudicar o pensamento crítico do usuário Foto: Imagem ilustrativa/Unsplash
Uso de IA no dia a dia pode prejudicar o pensamento crítico do usuário Foto: Imagem ilustrativa/Unsplash · Imagem: Source: www.terra.com.br

Para o psiquiatra, a situação ajuda a ilustrar como uma pessoa pode estabelecer uma espécie de parceria afetiva com um objeto sem necessariamente perder o contato com a realidade. “A IA conversa, ela é uma máquina que escolhe por probabilidade de vocabulário, completamente desprovida de qualquer empatia, de qualquer característica humana, mas ela tem um funcionamento que é muito fácil que a gente atribua características humanas a ela”, explica.

Contato humano não pode ser substituído

Para Cais, conversar com uma inteligência artificial não é necessariamente prejudicial. O ponto de atenção aparece quando ela começa a substituir as interações com outras pessoas. Para ele, a IA pode preencher temporariamente a necessidade de acolhimento em uma conversa, mas não é capaz de oferecer o mesmo que uma relação humana.

Psiquiatra alerta para riscos para a saúde mental de usar IA ao invés de consultar profissional

Foto: Imagem ilustrativa/Magnific

“A pessoa está conversando com a IA e ela pode deixar de conversar com um amigo por causa dessa sensação de que a IA está preenchendo um espaço de uma necessidade humana. Só que ela não está preenchendo, de fato, esse espaço”, afirma. O risco, segundo ele, é que a pessoa deixe de procurar alguém capaz de perceber que existe um problema e indicar a necessidade de ajuda.

Por isso, um dos principais sinais de alerta é quando conversar com a ferramenta deixa de ser uma curiosidade, uma diversão ou uma maneira de organizar pensamentos e passa a ser percebido como uma necessidade.

“Eu tenho necessidade de conversar com a IA. Eu tenho necessidade de trocar. Aquilo passou a ser importante para mim. Não é mais uma diversão, uma curiosidade. Tem um peso de necessidade. Ela está ocupando um lugar inapropriado. Já acende um sinal amarelo ou vermelho”, afirma.

IA pode reforçar comportamentos

Outro risco apontado pelo psiquiatra é a tendência de a inteligência artificial oferecer respostas que sempre validam o usuário. Isso é diferente do que acontece em uma relação humana saudável, na qual o outro pode acolher, mas também questionar.

Usar a IA para pedir conselhos é forma de se desconectar de relações humanas

Foto: Imagem ilustrativa/Magnific

Para Cais, isso pode ser especialmente problemático quando uma pessoa está em sofrimento ou apresenta uma compreensão distorcida de determinadas situações. Segundo ele, a ferramenta pode reforçar interpretações recorrentes como a ideia de que uma pessoa é sempre vítima das circunstâncias ou de que nunca tem participação nos problemas que enfrenta.

“Numa troca mais saudável, a pessoa espera o vínculo correto, o momento correto para te questionar. ‘Olha, mas espera um pouquinho. Se isso está acontecendo repetidamente com você na sua vida, será que não tem nada seu aí nessa história?’”, exemplifica.

Por isso o psiquiatra reforça a importância de sempre tratar problemas psicológicos com outra pessoa, de preferência um profissional, capaz de fazer questionamentos.

Cais afirma que nem sempre a IA é prejudicial, e que há momentos em que ela pode ser útil para um paciente organizar seus pensamentos e sentimentos, antes de levar as informações para uma consulta, por exemplo. No entanto, é preciso cuidado para que o uso da IA seja feito de forma saudável. “No final das contas, depende do que o humano vai fazer com essa ferramenta”, resume.

Fonte: Portal Terra

Compartilhar

TAGS

Segurança Digital Saúde mental Vida e Estilo Byte